Galatea anuncia mostra inaugural

26/out

 

José Adário é a exposição que inaugura dia 09 de novembro o espaço físico da Galatea e a primeira individual do artista na cidade de São Paulo. A mostra conta com textos críticos de Alana Silveira, produtora e pesquisadora baiana que acompanha Adário há mais de três anos, e Rebeca Carapiá, artista baiana que trabalha com linguagens construídas a partir da lida com o ferro, além de projeto expográfico de Tiago Guimarães. A exposição reúne mais de cinquenta esculturas, em sua maioria criadas para a ocasião, que serão acompanhadas de fotografias de Adenor Gondim, fotógrafo baiano que retrata José Adário no contexto de seu ateliê há mais de três décadas

José Adário (1947) nasceu no bairro de Caixa d’Água, em Salvador, na Bahia. Foi iniciado aos 11 anos de idade no trabalho de ferreiro de candomblé pelo seu mestre e mentor Maximiano Prates, cuja oficina, situada na histórica Ladeira da Conceição da Praia, foi passada para Adário, que ali trabalha até hoje. As ferramentas de santo, esculturas de ferro que operam, no candomblé, uma espécie de mediação entre os homens e os orixás, entre o mundo físico – Aiyê – e o mundo espiritual – Orum -, são utilizadas nos terreiros em rituais e para devoção. Por produzi-las com grande sofisticação formal e originalidade, José Adário, também chamado de Zé Diabo, passou a ser reconhecido não só como o escultor-ferreiro mais celebrado dos terreiros de candomblé da Bahia, mas como um artista cuja prática é intimamente vinculada às raízes afro-diaspóricas da cultura de sua região – lembremos que Salvador é considerada a cidade mais negra fora da África.

As ferramentas produzidas por José Adário vinculam-se a diferentes orixás que “trabalham com o ferro”, que o possuem como matéria-prima – a começar por Ogum, o guerreiro e senhor das tecnologias. Cada ferramenta traz, de forma geometrizada, signos e aspectos gráficos vinculados à mitologia de cada entidade. Exu, o primeiro orixá no panteão das divindades iorubás, é o mensageiro entre os humanos e os deuses, a corporificação da encruzilhada, e é evocado através de formas que reproduzem os pontos riscados de cada qualidade distinta da entidade (Gira Mundo, Tranca Rua, Caveirinha), compostos por tridentes, lanças, círculos etc. A ferramenta de Ogum, entre as suas variações, trará sempre um arco de onde penderão utensílios agrícolas (machados, pás, facas, foices, lanças, martelos, enxadas, tesouras), sempre em número 7 ou seus múltiplos. Oxóssi, o caçador, tem como símbolo maior o arco e a flecha, seus instrumentos. Ossain, o senhor das ervas, frequentemente contará com folhas e um pássaro no topo de sua ferramenta. Oxumarê, termo de origem iorubá que significa “arco-íris”, é o orixá dos ciclos e da transformação, sendo frequentemente simbolizado por uma ou mais serpentes que envolvem a haste principal da escultura.

O reconhecimento do trabalho de José Adário não vem de hoje. Já em 1968, o estadunidense historiador da arte Robert Farris Thompson (1932-2021), especialista em arte e cultura afro-americana, conheceu o trabalho de Adário em visita à cidade de Salvador, incorporando-o à sua pesquisa. Assim, podemos encontrar menções e análises das esculturas em diversos livros e artigos, como Icons of the Mind: Yoruba Herbalism Arts in Atlantic Perspective (Ícones da mente: artes do herbalismo iorubá na perspectiva atlântica) (1975), Flash of the Spirit: African & Afro-American Art & Philosophy (A carne do espírito: arte & filosofia africana e afro-americana) (1983) e Face of the Gods: Art and Altars of Africa and the African Americas (A face dos deuses: arte e altares da África e das Américas Africanas) (1993). Em todos eles, Farris descreve e relaciona os signos abordados por Adário com a iconografia e liturgia dos povos iorubás, cujas tradições foram trazidas ao Brasil por populações negras escravizadas vindas dos territórios que hoje são países como Nigéria, Benin e Togo.

No que tange à inserção de José Adário no circuito brasileiro das artes, ela se deve, em grande parte, às iniciativas curatoriais do artista e curador Emanoel Araújo (1940-2022) a partir da década de 1990. Adário esteve presente em algumas das principais exposições em que Araújo pôde reunir e difundir a arte e a cultura afro-brasileira, até então fortemente negligenciadas pelas nossas instituições. Entre as mostras, estão: Os herdeiros da noite – fragmentos do imaginário negro, Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1994; Arte e religiosidade no Brasil: heranças africanas, Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega – Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1997; e A África por ela mesma, Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega – Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1998.

Para Adário, trabalhar com o ferro é se inscrever na linhagem de descentes de Ogum a que pertence: seus pais, avós e bisavós todos tinham alguma relação com esse orixá. E, como explica Farris Thompson, Ogum “vive nas chamas da forja do ferreiro, no campo de batalha e, mais especificamente, no fio da faca.” Assim, a prática de José Adário é uma forma de conexão e reverência à entidade. Para além da destreza técnica, fazer as ferramentas de santo requer sensibilidade para que se possa captar os desejos do orixá que dará vida e energia ao artefato. É como se a construção de cada ferramenta partisse do anseio da própria entidade em materializar-se no mundo, sendo o artista, neste caso, o mediador, unindo o campo espiritual e material. Não por acaso, José Adário também é considerado um grande babalorixá.

 

 

Cartografias de Manoel Veiga no MACUSP

 

Na exposição “Cartografias de Mundos Inexistentes”, MAC USP, Ibirapuera, São Paulo, SP, encontra-se 41 trabalhos, entre pinturas e fotografias, realizados nos últimos 15 anos pelo artista Manoel Veiga. Com formação em Engenharia Eletrônica e experiência como pesquisador em laboratórios de física, Manoel Veiga dedicou-se aos estudos das técnicas de grandes nomes da história da pintura, como Holbein, Caravaggio e Ingres, para transformar sua própria pintura em um campo de experimentação sobre a dinâmica dos fluídos. Manoel Veiga trabalha com a tela deitada sobre o chão. Não há marcas de gestos porque ele pouco usa um pincel. Seu principal instrumento é um borrifador de água que direciona a tinta de forma indireta.

Com os pigmentos de tinta acrílica aplicados sobre a tela, Manoel Veiga borrifa mais ou menos água na superfície das obras, levando em conta que as cores de pigmentos maiores e mais pesados vão afundar mais rápido do que os leves, que tendem a acompanhar o movimento da água. “Suas pinturas registram um processo de negociação com fenômenos que estão por toda parte: gravidade, difusão e capilaridade. Ao invés de representar a natureza, o artista trabalha com ela para imaginar novas configurações de espaço e tempo”, diz a curadora Heloisa Espada.

Entre 1994 e 1999, em sua transição da Engenharia para a arte, Manoel Veiga se dedicou às técnicas tradicionais como uma forma de conhecer e dominar materiais da pintura. Mas o interesse pela ciência, pela fotografia e pela arte de seu próprio tempo fez com que seu trabalho logo se tornasse um campo de experimentação tanto estética como conceitual. Trabalhando com as probabilidades estéticas a partir de conceitos da física e da química, o artista costuma dizer que “… o caos total e o controle total são duas utopias. Estamos sempre no meio dessas duas coisas”.

Além de suas pesquisas sobre dinâmica dos fluídos, a fotografia está presente na série “Construções”, realizada a partir daquilo que apenas a câmera digital é capaz de ver; na série Hubble, feita com a manipulação de imagens do famoso telescópio da Nasa; “Matéria escura”, em que a obra de Caravaggio é estopim para uma nova investigação sobre o espaço; e a recente série “Espectros”, na qual o artista funde fotografia e pintura.

 

Sobre o artista

Gradua-se em Engenharia Eletrônica pela UFPE (1989), tendo sido bolsista do Depto. de Física por 3 anos. Trabalha em fábrica até dedicar-se às Artes Plásticas (1994). Freqüenta a Escolinha de Arte do Recife (1994-95) e trabalha sob a orientação de Gil Vicente (1995-97). Estuda na Escola Nacional Superior de Belas-Artes e na Escola do Louvre em Paris, França (1997). Participa de workshop em Nova York (1998). Em São Paulo, estuda História da Arte com Rodrigo Naves (1999), Leon Kossovitch (2000/01) e desenvolve estudos teóricos com Carlos Fajardo (1999-2002) e com Nuno Ramos (2000).

 

Prêmios

Em 2006, Menção Especial (Bienal do Recôncavo), Prêmio Flamboyant (Salão Nacional de Arte de Goiás), em 2010, Prêmio “Mostras de Artistas no Exterior” (Fundação Bienal de São Paulo / Ministério da Cultura do Brasil), Prêmio Jabuti (Ilustração para Livro Infantil). Recebeu bolsa de estudos em 2005 para a Fondation Thénot França. Em 2002 umpriu residências artísticas na  Freie Kunstschule Berlin Alemanha e Faxinal das Artes, em Faxinal do Céu Paraná e em 2005 no Centro de Arte Marnay, Marnay-Sur-Seine, França. Possui trabalhos em coleções públicas como a Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE;  Museu de Arte Contemporânea, Goiânia, GO; Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, PR; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP; Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba, Sorocaba, SP; Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, PE; Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR; Sesc Pernambuco, Recife, PE.

 

Até 29 de janeiro de 2023.

 

 

Olhar histórico

24/out

 

O Sesc Pinheiros, São Paulo, SP, apresenta até 15 de janeiro de 2023, a exposição “Desvairar 22”. Com curadoria de Marta Mestre, Veronica Stigger e Eduardo Sterzi, a mostra parte da Semana de Arte Moderna de 1922 para rememorar alguns dos acontecimentos que marcaram aquele ano, como o Centenário da Declaração da Independência do Brasil, a Exposição Internacional do Centenário, a primeira transmissão de rádio no país e a descoberta da tumba do faraó Tutancâmon.

“Rememorar, por meio de datas marcantes, acontecimentos de repercussão histórica pode possibilitar a identificação, por meio de novos olhares, de fricções e choques presentes em circuitos já desgastados, com reparações que só serão possíveis a partir do envolvimento da coletividade”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo.

“Desvairar 22” se propõe a explorar caminhos ainda não percorridos: “Escolhemos duas imagens fundamentais em torno das quais organizamos nossa comemoração. Os “índios errantes” que, de “O Guesa” de Sousândrade ao “Macunaíma” de Mário de Andrade, povoam os sonhos de escritores e artistas como imagem por excelência dos povos por vir, e um Egito mítico, sobretudo, delirante, invocado com frequência nas artes, como uma espécie de alegoria do próprio inconsciente do tempo na sua busca por outra origem e outra história”, justificam os curadores. A mostra reúne mais de 270 itens de artes visuais, música, literatura e arquitetura, que serão apresentados em quatro diferentes núcleos.

 

Percorrendo a exposição

“Desvairar 22” ocupa o espaço expositivo do 2º andar, mas já está presente logo na chegada à unidade. Uma charge da cartunista Laerte – em que esfinge pede: “Decifra-me outra hora” – reproduzida no muro de 22m x 6m da entrada do Sesc Pinheiros.

“Está fundado o desvairismo”. Com a frase de “Paulicéia Desvairada”, de Mário de Andrade e ao som de “Alalaô” (“Allah-lá-ô”), marchinha do Carnaval de 1941, o público adentra a coletiva e chega em uma espécie de “prólogo da mostra”, como definem os curadores, que tem “Calmaria II”, de Tarsila do Amaral, como um dos destaques dessa área. A pintora modernista visitou o Egito em 1926, com o então marido Oswald de Andrade, e referências dessa viagem estão nessa e em outras de suas obras. Flávio de Carvalho, Vicente do Rego Monteiro, Murilo Mendes e Graça Aranha também estão nesta seção, que leva o visitante até um sarcófago egípcio original. Ele está no centro da exposição, que tem uma montagem circular e seis vias a serem percorridas.

O primeiro núcleo é “Saudades do Egito”. “A terra dos faraós e dos sacerdotes, das pirâmides e das esfinges, vem inquietando há tempos a narrativa linear da cultura dita ocidental. A modernidade, com a invenção do turismo e da fotografia, renovou esse interesse pelo país, que agora é não só origem, mas também destino”, diz a curadoria. Nesta seção estão fotos da expedição que D. Pedro II fez ao Egito na década de 1870. Apesar de ter visitado o país aos 45 anos, o imperador era um “egiptomaníaco” desde a infância. Da viagem, trouxe muitos artefatos históricos, que formaram um dia o maior acervo egípcio da América Latina, mas grande parte dele se perdeu com o incêndio em 2018 do Museu Nacional do Rio de Janeiro. A descoberta da tumba de Tutancâmon é lembrada em jornais da época. A arquitetura “faraônica” de Brasília está representada em fotos de Marcel Gautherot e na série “Estudo de caso Kama Sutra”, da artista Lais Myrrha. A inspiração do Egito se revela na ópera “Aída”, em músicas de Margareth Menezes e Jorge Benjor e em videoclipe do grupo É o Tchan. As raízes negras do país africano também são ressaltadas no núcleo em obras como as de Abdias do Nascimento.

“Os Ossos do Mundo” é o título de um livro de Flávio de Carvalho, que mostra seu fascínio pelas ruínas e coleções dos museus como uma forma de penetrar nas várias camadas da história que formaram indivíduos e sociedade, ajudando a entender o presente e também o futuro. Neste núcleo se destacam imagens do desmonte do Morro do Castelo, no Rio de Janeiro.  Símbolo do passado colonial português, ocupava uma área de 184 mil m2, e foi destruído em nome de uma modernização urbanística e a construção dos pavilhões para a Exposição Internacional do Centenário. Figuras que remetem às múmias aparecem em obras como a de Cristiano Leenhardt.  Originário do Egito, o mosquito Aedes aegypti também ganha espaço, surgindo em uma tela de Oswald de Andrade Filho e em “Farra do Latifúndio”, obra inédita de Vivian Caccuri.

O próximo núcleo é “Meios de Transporte”. “A revolução tecnológica da modernidade encurtou distâncias e abriu caminhos novos para o corpo humano e, ao mesmo tempo, colocou-o diante de perigos e impasses inéditos. Não por acaso, a imaginação modernista incorporou obsessivamente a suas criações esses novos veículos que alteraram para sempre a face do mundo”, explicam os curadores. Há registros da passagem do dirigível Graf Zeppelin pelo Brasil nos anos 1930 e de um bonde empacado fotografado por Mario de Andrade. Mas o núcleo não se restringe a veículos de locomoção. “Pelo telefone” é o primeiro samba registrado fonograficamente. Daniel de Paula transforma em escultura uma luminária sucateada da Avenida Paulista, em São Paulo. Gravações feitas por Roquette Pinto de canções dos indígenas Pareci e Nambikawara e obras de Denilson Baniwa que inserem aparelhos tecnológicos no cotidiano indígena preparam o visitante para o último núcleo.

“Índios Errantes” se dá na contramão da idealização do indianismo romântico. É menos a “Iracema” de características europeias de Antônio Parreiras e mais o “Macunaíma” revisitado por Fernando Lindote. O núcleo traz obras de Anna Maria Maiolino, Carybé, Flávio Império, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Paulo Nazareth e Regina Parra. Registros da expedição realizada por Mário de Andrade à região amazônica em 1927 e fotos de Claudia Andujar e Alice Brill também estão presentes nesta seção.

A literatura é parte muito relevante da exposição, tangenciando e desdobrando sua pesquisa. Em toda a mostra, há trechos de autores diversos, que vão de Clarice Lispector a Ana Cristina Cesar, de Menotti del Picchia a Glauber Rocha. Em “Índios Errantes” ganha destaque um texto de 2018 do artista indígena Jaider Esbell, morto no ano passado. “O ser que sou, eu mesmo, é homem, um guerreiro pleno de 1,68 metros, 82 kg, 39 anos. É livre como deve ser. É livre como é meu avô Makunaima ao se lançar na capa do livro do Mário de Andrade (…)”.

Encerrando a visita, na varanda ao ar livre, o público conhecerá a instalação dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, campeões pela Acadêmicos do Grande Rio neste ano. “Exunautas” é uma remontagem de parte do carro alegórico que encerrou o desfile da escola de samba na Sapucaí. Ela traz sete esculturas que representam o orixá Exu e suas dimensões transformadoras.

“Desvairar 22” integra a ação em rede “Diversos 22: Projetos, Memórias, Conexões”, desenvolvida pelo Sesc São Paulo.

 

Sobre os curadores

Marta Mestre é curadora e trabalha em Portugal e no Brasil. Atualmente é diretora artística do Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Foi curadora no Instituto Inhotim, curadora-assistente no MAM-Rio, curadora-convidada e docente na EAV-Parque Lage. É membro do Conselho Geral da Universidade do Minho, Portugal. Entre outros projetos, foi curadora de “Farsa” (SESC-Pompéia, São Paulo, 2020) e “Alto Nível Baixo” (Galeria Zé dos Bois, Lisboa, 2020). Atualmente prepara a retrospectiva “Philippe Van Snick: Dynamic World” (S.M.A.K, Ghent, Bélgica), que será inaugurada em 2022.

Veronica Stigger é escritora, curadora independente e professora universitária. Foi curadora, entre outras, das exposições “Maria Martins: metamorfoses” e “O útero do mundo”, ambas no MAM (São Paulo, 2013 e 2016); co-curadora, ao lado de Eduardo Sterzi, de “Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo”, no Sesc Ipiranga (2015), Sesc Araraquara (2016), Weltkulturen Museum (Frankfurt, 2017) e CIAJG – Centro Internacional das Artes José de Guimarães (Guimarães, 2019); e co-curadora, ao lado de Eucanaã Ferraz, de “Constelação Clarice”, no Insituto Moreira Salles (São Paulo, 2021 e Rio de Janeiro, 2022) . Com a exposição sobre Maria Martins, angariou o Grande Prêmio da Crítica da APCA e o Prêmio Maria Eugênia Franco, concedido pela ABCA para melhor curadoria do ano.

Eduardo Sterzi é escritor, crítico literário e professor de Teoria Literária na Unicamp. Autor dos volumes de estudos literários “Por que ler Dante” e “A prova dos nove: alguma poesia moderna e a tarefa da alegria”, ambos de 2008, e “Saudades do mundo”, que será publicado ainda em 2022. Organizou também “Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos”. Foi co-curador das exposições “Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo” (SESC Ipiranga, 2015; SESC Araraquara, 2016; Weltkulturenmuseum, Frankfurt, Alemanha, 2017; e CIAJG – Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Guimarães, Portugal, 2019), e “Caixa-preta”(Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, 2018).

 

Sobre o Projeto Diversos 22

“Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões” é uma ação em rede do Sesc São Paulo, em celebração ao Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e ao Bicentenário da Independência do Brasil em 1822, com atividades artísticas e socioeducativas, programações virtuais e presenciais em unidades na capital, interior e litoral do estado de São Paulo, com o objetivo de marcar um arco temporal que evoca celebrações e reflexões de naturezas diferentes, mas integradas e em diálogo, acerca dos projetos, memórias e conexões relativos à efeméride, no sentido de discuti-los, aprofundá-los e ressignificá-los, em face dos desafios apresentados no tempo presente.

 

 

Segredos e enigmas de Lize Bartelli

21/out

A Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP, apresenta a mostra “Skeleton Closet”, primeira individual de Lize Bartelli em seu espaço paulista. A série “Skeleton Closet” é um vislumbre da construção de um mundo que mistura imaginação e realidade, propondo criações figurativas, mas não necessariamente realistas. A artista convida amigas e familiares a posar para retratos absolutamente íntimos, geralmente solitários, em ambientes particulares e interiores domésticos. Ocasionalmente, um gato ou uma criança acompanham as modelos, carregando as cenas de um simbolismo misterioso. Lançando mão de cores não-naturalistas, as peles das figuras são esverdeadas e azuladas, evocando certa decadência, a mortalidade inerente a todas nós. O próprio título da mostra alude aos esqueletos no armário, apontando, de um lado, para o aspecto da morte, enquanto também sugere os segredos e enigmas que todas as suas personagens insinuam.

 

Até 10 de dezembro.

 

Celebração do artista e sua obra

 

“BARAVELLI 80” é uma exposição organizada pela Fundação Stickel, Vila Olímpia, São Paulo, SP, em colaboração com a Galeria Marcelo Guarnieri que celebra os 80 anos do artista Luiz Paulo Baravelli. Serão apresentadas 57 obras do artista, cada uma correspondente a um dos seus 57 anos de carreira, desde 1965 até 2022. Pinturas, desenhos e relevos que manifestam o seu interesse pela arquitetura, pelo desenho da figura humana e pela pintura de paisagem, e que propõem um diálogo descontraído com a tradição. Para fazer companhia às suas obras, Baravelli convocou “Amigos e Vizinhos”, que segundo ele, foram – e ainda são – seus guias e orientadores ao longo de sua trajetória. Cerca de 200 imagens de obras de arquitetos, artistas, cartunistas e designers apresentados na exposição em formato de vídeo dão conta de aproximar o público visitante ao repertório do artista, que abarca desde uma pintura de Giotto de 1304, uma escultura de Barbara Hepworth de 1943, o still de uma cena do desenho animado “Os Jetsons” de 1962, até uma escultura de Martin Puryear de 2005.

Formado arquiteto e consagrado como pintor, Baravelli experimenta com o espaço tridimensional, tanto no campo físico, como no campo virtual de suas pinturas e desenhos. Em sua obra, as noções de perspectiva, planta, elevação e corte provenientes da linguagem da arquitetura são utilizadas para representar espaços interiores, casas e outras edificações, mas não se restringem ao traço, tornam-se ferramentas para questionar o formato quadrado da tela, dando às suas pinturas um certo dinamismo. É desse modo que elas transitam entre duas e três dimensões e adquirem o caráter híbrido de pintura-objeto. Podem ter contornos reconhecíveis como os de um corpo humano esguio ou contornos estranhos como os de pálpebras gordas e agigantadas que se beijam, contornos redondos que reivindicam seu lugar dentro da tradição do quadro e mesmo os quadrados que abrigam outras quadras e quadrículas dentro dos limites da moldura.

Baravelli compõe em camadas, recorta e sobrepõe referências, estilos, materiais e texturas. Tais operações estão carregadas de um senso de humor que tem permitido ao artista estabelecer uma relação espirituosa com sua obra nesses 57 anos de produção e que se faz evidente nos modos de abordar questões tão diversas como o amor, a história da arte, figuras de poder como políticos e colecionadores, problemas de planejamento urbano e a sensação de tédio de uma noite como outra qualquer. Não são temas, são questões que atravessam a qualquer um de nós, e que no trabalho de Baravelli surgem como comentários inusitados, mas sutis, daqueles que poderiam passar despercebidos em uma conversa com os mais desatentos. Não foi à toa que seus amigos e vizinhos foram convocados a participar dessa exposição, são vozes que ampliam o diálogo, adicionando camadas de significados e abrindo pontes para outras conversas.

Celebramos com alegria os oitenta anos de vida de um artista que dedicou cinquenta e sete anos a uma atividade de tão grande importância para a nossa cultura, formando outras tantas gerações de artistas, alunos, leitores e que é parte fundamental da história da arte de nosso país. E com a mesma alegria, celebramos a oportunidade de termos estado juntos durante os últimos trinta anos. Viva Baravelli!

 

Até 04 de fevereiro de 2003.

 

 

Mostra na Sala Guido Arturo Palomba

 

Exposição organizada a partir do acervo de artes visuais da Associação Paulista de Medicina, Bela Vista, São Paulo, SP, e da coleção particular que reúne obras de treze dos mais expressivos artistas do Concretismo brasileiro e presta homenagem ao psiquiatra forense e diretor cultural da instituição. Com visitação gratuita e abertura em 26 de outubro, o público poderá conhecer 30 obras assinadas por nomes como Luiz Sacilotto, Judith Lauand, Hércules Barsotti, Jandyra Waters, Paulo Pasta, Arcângelo Ianelli, Bárbara Spanoudis, Ramon Cáceres e Maurício Nogueira Lima.

Com curadoria do historiador e crítico de arte Enock Sacramento, um dos maiores especialistas dessas vertentes modernistas da arte brasileira, a exposição inaugura a Sala Guido Arturo Palomba, espaço que presta homenagem ao psiquiatra forense, um dos mais renomados profissionais da medicina legal e diretor cultural da Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina.

Deliberada em votação realizada pela diretoria da APM em 17 de janeiro de 2020, a renomeação da antiga Sala Contemporânea da Pinacoteca da APM reconhece os esforços de Guido Arturo Palomba, que, desde 1982, é um dos maiores entusiastas da preservação e da continuidade do espaço cultural paulistano dedicado às artes visuais, uma das grandes paixões do médico, que possui uma coleção predominantemente construtivista e, inclusive, doará e emprestará obras de seu acervo para a exposição.

 

Acervo em construção

A criação do acervo artístico da APM, na segunda metade da década de 1940, contou com o apoio inaugural do então presidente, dr. Jairo Ramos, em resposta aos anseios de médicos, artistas e críticos de arte que participavam de palestras e debates realizados na sede da instituição. Em 1949, dr. Ernesto Mendes, um dos diretores da APM, recebeu a incumbência de também dirigir a recém-criada Pinacoteca. Por meio de uma campanha de doações de associados que viabilizaram um fundo destinado a aquisições, 14 obras de artistas modernistas compuseram o núcleo inicial da coleção, reunindo trabalhos de, entre outros, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Anita Malfatti, Cândido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Francisco Rebolo Gonzáles, José Pancetti, Lasar Segall, Mário Zanini e Tarsila do Amaral.

Entre outras ações pontuais, na década de 1980, quando o cirurgião plástico e pintor Aldir Mendes de Souza tornou-se presidente da Associação Profissional dos Artistas Plásticos do Estado de São Paulo (APAP/SP), foi estabelecido um convênio entre a APAP, a APM e a Unimed Paulistana, mediante o qual os artistas receberiam um plano de saúde em troca de trabalhos doados à Pinacoteca da APM. Ao longo de três anos a parceria possibilitou ao acervo da Pinacoteca a inclusão de obras de, entre outros, Alex Flemming, Bernardo Krasniansky, Gilberto Salvador, Léon Ferrari, Lúcia Py, Maria Bonomi e Sonia von Brusky. Egressos desse acordo, trabalhos de Bárbara Spanoudis, Valdeir Maciel e do próprio Aldir Mendes de Souza integram a mostra “Diálogo Construtivo Paulista”. A partir dos anos 1990, com a atuação regular do dr. Guido Arturo Palomba na Pinacoteca da APM, novas iniciativas, como a cessão do espaço para a realização de mostras individuais e a publicação de catálogos de algumas das exposições, a coleção continuou a crescer com obras de Antônio Peticov, Cláudio Tozzi, Gregório Gruber, Inos Corradin, Ivald Granato e muitos outros. Hoje, o acervo da Pinacoteca da APM conta com cerca de 200 obras das mais variadas vertentes estéticas e cumpre importante valor histórico e cultural, com o acesso gratuito ao público paulistano, de outros estados e países.

Lisonjeado com a homenagem que receberá, e em meio à expectativa pela abertura da mostra “Diálogo Construtivo Paulista”, Guido Arturo Palomba faz um balanço de sua atuação na Pinacoteca da APM. “Estou no Departamento Cultural da APM desde 1982, portanto há 40 anos. Comecei como membro e, posteriormente, me tornei diretor cultural, cargo que exerci por várias gestões seguidas. Procurei dar o máximo, não somente à Pinacoteca, mas, de modo geral, à APM, que é minha casa desde os primeiros dias de formado até hoje. A Pinacoteca é a menina de meus olhos e a ela me dediquei e me dedicarei até quando não mais quiserem que eu lá permaneça”, afirma.

A realização da mostra também compreende ações educativas, como visitas guiadas para escolas públicas, sobretudo as da região central de São Paulo, e a publicação de um livro, com tiragem de 500 exemplares e versão eletrônica, que será disponibilizado gratuitamente para instituições culturais e das redes municipal e estadual de ensino.

Até 30 de novembro.

 

 

A cerimônia da arte autoral

19/out

 

“RITUS” é a segunda exposição conceituada por Renato De Cara que abre no Porão da BELIZÁRIO, Pinheiros, São Paulo, SP, com 30 trabalhos de Leo Sombra e Otoniel Ferreira onde esculturas e fotografias contam histórias de diferentes momentos dos dois artistas que apresentam suas poéticas construídas através de sua fé e da documentação do fazer artístico. Renato De Cara traz artistas marginais ao eixo Rio/São Paulo como uma afirmação cabal de que o fazer artístico não se circunscreve à eixos pré-definidos. A capacidade de transmitir emoções, sensações, verdades, nasce onde o criativo está sempre que há foco e determinação em seguir suas crenças e poéticas e que vivencias e origens distintas não são determinantes de conflitos e sim de harmonia e congruência. “Histórias e lendas, crenças e mitos – assim construímos nossas narrativas. Os afetos vão corroborando repertórios apropriados para vivermos dentro daquilo que podemos nominar como conforto ou reforço na salvaguarda de nossas esperanças”, conceitua o curador.

As fotografias de Leo Sombra compõe a série “Cura Áspera”, um registro analógico em negativo de 35mm, onde o artista se apropria dos ruídos e do acaso, “construindo assim uma narrativa sutil com elementos simples e banais da natureza e do seu cotidiano familiar. A imagem fotográfica como diário de uma pausa forçada a partir de uma lesão no pé. O artista, então isolado e imobilizado, começa a inventariar a poesia sutil do entorno”, explica o curador. Os paradigmas panafricanos são o foco principal das pesquisas de Otoniel Ferreira que exibe trabalhos da série Adupé-Iowo-olorún (Graças a Deus por ter conservado minha vida e minha saúde até hoje) onde esculpe e desenha totens e oferendas para seus orixás e santos de devoção. Nas palavras de Renato De Cara, “as construções escultóricas se dão coletando madeiras e materiais variados para resinificar a fé e o respeito ao divino. Seja na tradição de ex-votos ou numa pintura nova e sincrética o artista nos alimenta de esperança potencializando a verdade viva que experimenta…Dentro dos limites pessoais ou na expansão da liberdade imaginada de cada um a linguagem se fortalece, seja em imagens representativas ou documentais para falarmos com sinceridade sobre aquilo que nos é caro.”

Renato De Cara

 

Sobre os artistas

Léo Sombra (São Miguel, RN, 1986) – Vive e trabalha em São Paulo, para onde se mudou em 1998. Em 2006 fez um curso profissionalizante na ONG ImageMágica, onde, por falta de recursos, começou a fotografar no formato pinhole, construindo imagens com câmeras sem lentes e papéis fotográficos vencidos. Documentou a cidade de São Paulo e sua periferia, assim como indivíduos à margem da sociedade como portadores de deficiência visual, usuários de crack e moradores de rua. Incorporando o acaso e os defeitos oriundos do processo artesanal que utiliza para fotografar, Sombra desenvolve uma imagética intrigante e expressiva que, em certos momentos, nos remete a um universo estético muito particular, cheio de ruídos e impurezas transformados em poesia. Em 2011 teve cinco de suas obras adquiridas pela Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Otoniel Ferreira (Oto) – (Serrinha, BA, 1995) – Vive e trabalha em São Paulo. Ogã, Escultor, Pintor, Luthier e Artista Interdisciplinar, cursou Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA. Foi violinista e luthier no Programa NEOJIBA, acompanhando a Orquestra Juvenil da Bahia em sua Turnê Europa 2018; cursou construção e restauro na Geigenbauschule Brienz, na Suiça, e atuou como estagiário em ateliers em Genebra e França. Em 2019, participou da Exposição Pintura no Museu de Arte da Bahia e do 8° Salão da Escola de Belas Artes. Participou da Feira Latino Americana Equinox no ano de 2022. Segundo o artista, sua pesquisa é por meio da experiência no existir, corpo trajeto e território, suas estéticas e poéticas, comungando em sua arte o sentido de pertença à nação afrolatina e o descondicionamento às epistemes da colonização e do mundo globalizado.

 

Sobre o curador

Renato de Cara (Lins, SP 1963) – Vive e trabalha em São Paulo. Bacharel em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP (1985). Interessado em cultura, especializa-se em arte e moda contemporânea, produzindo, escrevendo, editando e fotografando para marcas e veículos de comunicação. No período entre 2006 e 2017, dirige a Galeria Mezanino, respondendo pela produção e curadoria de inúmeras exposições, tanto individuais como coletivas fazendo com que o espaço se consolide tanto como um celeiro para novos nomes como também de resgate para artistas em meio de carreira, cruzando linguagens e propondo novas abordagens no mercado de arte contemporânea. Em 2018, assume a Diretoria do Departamento de Museus municipais de São Paulo, coordenando quinze espaços museológicos e históricos, construídos entre os séculos XVII e XX. Atua como curador independente e consultor de arte, acompanhando artistas em parcerias com instituições diversas.

 

De 24 de outubro a 19 de novembro.

 

 

Jogo de sedução e fartura em Yêdamaria

14/out

 

“Yêdamaria: Políticas da Intimidade” é uma exposição – em cartaz até 10 de dezembro na galeria Simões de Assis, Jardins, São Paulo, SP – que convida a ver de perto, que trama vizinhanças. As obras que compõem o conjunto em exibição dão indícios de uma artista profícua e ainda por ser decifrada, mas que há pouco batemos em sua porta, para nos aconchegar no seu lugar.

Devemos pensar e considerar o contexto para a existência de uma figura tão pertinente e “teimosa” como Yêdamaria – que, mesmo diante das violências visíveis e invisíveis, deixa como legado a excelência de sua produção. Cabe dizer ainda que Yêdamaria pintou a fartura, os espaços de encontro, o íntimo e o popular. Suas cenas nos ensinam a encontrar intimidade no sublime, porque constrói miragens para os olhos por vezes fatigados do cotidiano.

 

Texto de Horrana de Kássia Santoz

“Para curar a cisão entre mente e corpo, nós, povos marginalizados e oprimidos, tentamos resgatar a nós mesmos e às nossas experiências através da língua. Procuramos criar um espaço para a intimidade.” (1)

Tenho a honra de apresentar “Yêdamaria: Políticas da Intimidade”, exposição que celebra a vida e o patrimônio artístico da professora e artista baiana Yeda Maria Corrêa de Oliveira (1932-2016) que, por mais de cinquenta anos, dedicou-se integralmente ao seu meio de expressão. Com uma conduta ilibada, sendo constante e criativa na fatura de suas obras, ela é um dos nomes fundamentais da pintura brasileira contemporânea e, pela mesma razão, sabemos hoje que ainda há muito a ser desvendado da sua trajetória.

Nascida na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, em 12 de março de 1932, Yeda Maria Corrêa de Oliveira, filha única da professora primária Theonilda da Silva Corrêa de Oliveira, teve seu olhar atravessado pela experiência do seu lugar. Cresceu no bairro da Ribeira, onde conviveu com as marinas, o comércio popular, as frutas, as cosmologias afrodiaspóricas; esses índices, por serem tão próximos, se tornaram a tônica de sua produção.

Formada no Instituto Normal da Bahia em 1951, Yêdamaria iniciou sua carreira lecionando na educação básica, seguindo os passos e os desejos de sua mãe. Em 1956 já pintava e, como aluna da graduação em Belas Artes e Pintura na Universidade Federal da Bahia (UFBA), muito bem relacionada entre os artistas de sua geração, recebeu o prêmio de Menção Honrosa, no Salão Baiano de Artes Plásticas. Outro momento da atuação de Yêdamaria como educadora foi em 1971, quando ingressou na UFBA como professora das disciplinas de desenho e gravura. Em 1977, viajou para os Estados Unidos para cursar o mestrado na Illinois State University. Foi após essa experiência que outras técnicas, como a colagem e a gravura, ganharam peso nas suas composições e sua produção alcançou merecido prestígio internacional.

No Brasil da década de 1970, a ditadura civil militar foi um dos momentos de maior tensão e de fortes restrições, especialmente para a classe artística e, nos Estados Unidos, devido às inúmeras manifestações pelos direitos civis e da luta antirracista, havia um cenário social e político igualmente desafiador. Para Yêdamaria, artista, mulher negra e latino-americana, sua carreira foi moldada por esse contexto. Para além dos reveses no Brasil, o corpo docente da universidade americana, por muito tempo e de forma nada elogiosa, demarcou sua produção como naïf. Mas, ao final da temporada de estudos, a universidade adquiriu toda sua produção do período para sua coleção permanente. Estes são apenas alguns dos incontáveis episódios de pelejas que Yêdamaria vivenciou e logrou êxito.

Dessa energia produtiva, na “fase dos barcos” – assim chamado o período célebre de cerca de doze anos que a artista produziu um grande número de pinturas marinhas – é possível notar o tratamento pictórico e a ordenação dos planos e linhas que Yêdamaria aplicava em suas cenas. Herdeira das vanguardas artísticas tanto quanto por seu olhar atento ao ordinário, a cor e o desenho são elementos primordiais em sua produção e é por meio deles que Yêdamaria demonstrou sua grande destreza compositiva.

Na obra “Barcos com casarios”, de 1964, exposta aqui, os casarios coloridos verticalizam a paisagem, enquanto os barcos minuciosamente aportados no primeiro plano flutuam na orla. A cena é solar, quente e carrega um pouco de nós, como o “Timoneiro” da canção de Paulinho da Viola. A densidade cromática dos azuis, vermelhos e amarelos revela a dedicação incansável da artista pelo estudo dos efeitos, nuances e mesclagens que aplacam suas composições e fazem o espectador quase se perceber dentro da obra, no balanço dos barcos e na brisa das marinas. O branco de sua paleta é intenso e, quando visto nas toalhas de mesa, nas porcelanas, no brilho das transparências das taças, talheres e das jarras de prata, é de um requinte acachapante.

As naturezas-mortas são puro deleite e luminosidade, contrapondo o tom soturno tão habitual nas cenas de interior desse gênero de pintura. Quem duvidaria da opulência ao ver um peixe farto, coberto por rodelas de limão, acompanhado de uma saladinha de alface e tomates e servido generosamente em uma travessa de porcelana azul e branca? Quem é aguardado pela bandeja azul posta em diagonal, repleta de cajus maduros, de um amarelo alegre, contrastando ao fundo esverdeado? Até mesmo do prato cinza com maçãs de um vermelho profundo e reluzente sobre fundo verde? Tudo em Yêdamaria é um jogo de sedução e fartura, seja pelo olhar, pelo tato e até pelo paladar.

Yêdamaria: Políticas da intimidade é uma exposição que convida a ver de perto, que trama vizinhanças. As obras que compõem o conjunto em exibição dão indícios de uma artista profícua e ainda por ser decifrada, mas que há pouco batemos em sua porta, para nos aconchegar no seu lugar. Devemos pensar e considerar o contexto para a existência de uma figura tão pertinente e “teimosa” como Yêdamaria – que, mesmo diante das violências visíveis e invisíveis, deixa como legado a excelência de sua produção. Cabe dizer ainda que Yêdamaria pintou a fartura, os espaços de encontro, o íntimo e o popular. Suas cenas nos ensinam a encontrar intimidade no sublime, porque constrói miragens para os olhos por vezes fatigados do cotidiano.
Magnum opus. É dessa forma que a obra de Yêdamaria merece ser vista e celebrada.

(1) Hooks, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade / bell hooks; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. – 2. ed., p.223 – São Paulo: Editora WMF, Martins Fontes, 2017.

 

Alexandre Murucci  apresenta Cadeau

13/out

 

O artista visual Alexandre Murucci exibe a mostra individual “Cadeau” – até 29 de janeiro de 2023 – no Centro MariAntonia, Vila Buarque, São Paulo, SP, com 17 obras – esculturas, objetos, fotografias, videoinstalação e instalações – onde traça um panorama crítico e por vezes atávico, do momento político atual e, quase hereditário, dos males que assolam a nação. Ao mesmo tempo, o artista reconhece seu momento e seu papel e, o que crê ser a demanda de seu país: fortalecer instituições, liberdades e discursos inclusivos. A curadoria e o texto crítico são de Shannon Botelho.

“Cadeau”, que titula a mostra e também nomeia uma das obras da exposição, na língua portuguesa significa ‘presente’, como ato de estar fisicamente num lugar ou numa causa, assim como celebrar outra pessoa, dar a ela uma lembrança num momento especial; “e este termo tem sido usado como palavra de ordem em atos de protestos e luta por direitos individuais e coletivos da sociedade brasileira. Será este o presente que deixaremos para futuras gerações ou estaremos presentes na hora de defender nosso patrimônio natural ??”, questiona o artista.

Na visão de Shannon Botelho, o artista dando sequência à sua visão de perdas pregressas que continuam ameaçando o seu presente, explica: “Sobre essas ideias está estruturada a crítica de Murucci, uma insurgência contra as opressões e as formas de violências que insistem em minorar a vida, como uma sirene em alerta, indicando a sucessão distópica de eventos que a compõem.”

Sobre as obras em exposição, mantendo um viés coerente em sua criação artística, Murucci brinda o público com trabalhos que derivam de uma dialética, um pensamento plástico à serviço ‘de uma abordagem crítica dos fatos’. Os temas podem variar, mas a abordagem mantém fiel à dinâmica necessária para cada peça: a opção pelos suportes mantém-se fidedignas ao fio condutor do trabalho que é seu conceito.

“Neste sentido, mantenho essa unidade matérica com uso de ferro, metal, espelho e madeira, que reverberam um cromatismo restrito, só quebrado pela eventual presença de vermelhos, pois foi a cor base de uma fase bastante ampla do meu trabalho. E, como suportes principais, apresento esculturas, objetos, fotografias, vídeos e instalações, mesmo que o desenho esteja fortemente presente na criação das obras”, pondera o artista. A utilização de materiais pós-industriais e naturais os quais imprimem uma fatura povera e ready-mades, instauram uma lógica criativa, mais do que uma investigação da forma. “Um pensamento plástico em busca de um testemunho de meu tempo histórico, sem preconceitos físicos formais, a não ser o rigor do acabamento, fruto de meu DNA da arquitetura e do design”, conclui.

“Atento ao agora, que nos presenteia com realidades disruptivas, o artista convoca a nossa atenção para o momento de virada que atravessamos, lembrando-nos da responsabilidade de solidificar nossas escolhas para uma saída do labirinto existencial que o país e o mundo se encontram. Urge reinventar o porvir para um outro amanhã. Neste sentido, não basta que a arte seja uma reinvenção do que virá. Importa que ela seja uma engrenagem na transformação do presente. Por esta razão, Alexandre Murucci estrutura em Cadeau um manifesto visual, no qual os termos são definidos pela fluidez de narrativas, cujas dialéticas articulam um possível futuro, a partir daquilo que possamos lhe deixar como presente”. Shannon Botelho

“Um olhar crítico, neste momento grave da história brasileira, com todas as ameaças aos direitos individuais e às instituições advindas de um grupo no poder que deveria preservar e harmonizar a nação frente aos inúmeros desafios que o mundo atravessa, vejo que isto se torna mais necessário ainda, principalmente num período de acirramento e polarização da sociedade em torno das escolhas para nosso destino como democracia e nação”. Alexandre Murucci

 

Sobre o artista

Alexandre Murucci nasceu no Rio de Janeiro, RJ, 1961. Artista plástico com formação pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), com orientação de Luis Ernesto. Grupo de estudos com Fernando Cocchiaralle e Felipe Scovino e ateliê de escultura com Israel Kislanski. Em 20 anos de trajetória, trabalha com suportes múltiplos e ênfase em escultura, fotografia, instalações, vídeo e digital art (NFT), conta com mais de 80 exposições em sua trajetória. Sua multidisciplinariedade o faz atuar também como diretor de arte, cenógrafo, curador, designer, cineasta e autor em mídias diversas, com mais de 30 anos de carreira em Cinema, Teatro e Design. Suas obras com foco conceitual, e em suportes variados, falam principalmente de identidades, inserções periféricas e polaridades dos fluxos de poder, sempre através do viés político-histórico, com referências metalinguísticas no âmbito da arte. Em 2007, foi selecionado para o prêmio Bolsa Iberê Camargo. Em 2009 foi convidado para Las Américas Latinas – Fatigas Del Querer, mostra coletiva em Milão com curadoria de Philippe Daverio e em 2011 foi o vencedor do 2º prêmio da Fundação Thyssen-Bornemisza, de Vienna, no projeto The Morning Line – TBA21. Como destaque nas exposições individuais, pode-se citar “Arquipélago” – na Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida, O Fio de Ariadne, Centro Cultural Correios, RJ, Las Américas Latinas, em Milão, Italia e a Nicho Contemporâneo no Museu Nacional de Belas Artes, RJ, além de exibições nos EUA, Eslovênia, Cuba e Alemanha, entre muitas. Em 2011, foi o artista selecionado para representar o Brasil na Bienal da Áustria; em 2019 na 13ª Bienal do Cairo, e em 2017, um dos artistas da 57ª Bienal de Veneza, selecionado em um opencall mundial, para o Pavilhão de Grenada, sob curadoria de Omar Donia. Foi também um dos primeiros artistas a mostrar seus trabalhos em NFT numa feira presencial de arte – a ARTRIO, através de sua galeria Metaverse Agency, uma participação inédita, internacionalmente.

 

Sobre o curador 

Shannon Botelho – Crítico de arte, curador independente e professor no Departamento de Artes Visuais do Colégio Pedro II (RJ). Doutorando em História e Crítica da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes/UFRJ em parceria com a École des Hautes Études en Sciences Sociales/CRBC (Paris); representante do Comitê de História, Teoria e Crítica de Arte da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP) e curador convidado do Memorial Municipal Getúlio Vargas (RJ). Realiza cursos de acompanhamento crítico e teórico para profissionais ligados ao campo cultural no Rio de Janeiro e São Paulo. Assinou curadoria de algumas exposições como Abstrato Possível, Concreto Real (MMGV-RJ-2017); Balangandãs (Zipper Galeria-SP 2018); Paisagem Grão de Areia (MMGV-RJ 2018); O que você guarda tão bem guardado (Casa Abaeté – Ribeirão Preto 2019); Da Linha, o Fio (BNDES-RJ2019), Impulsos Imitativos (MMGV-RJ-2019), Estruturas Improváveis (Casa das Artes-Tavira 2020), Illusions (Zipper Galeria-SP 2021), Malgré le Brouillard (Anne+ Art Contemporain – Paris 2021) e Forma é Afeto (Andrea Rehder-SP 2022).

 

Sobre o MariAntonia

O Centro Universitário MariAntonia, um dos órgãos da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, está instalado nos edifícios históricos Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, que pertenceram à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Desde sua inauguração, em 1993, com uma atuação multidisciplinar, o MariAntonia conquistou um lugar próprio entre as instituições culturais da cidade. Situado estrategicamente na região central de São Paulo, abriga exposições diversas, oferece cursos de curta duração, palestras, debates e seminários, e outros eventos. Também abriga a Biblioteca Gilda de Mello e Souza, com acervo dedicado principalmente à Estética, cujo núcleo gerador é a coleção de livros sobre arte, estética e história da arte que pertenceu à professora que empresta seu nome ao espaço, primeira docente de Estética da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Entre os artistas que tiveram mostras recentes no espaço estão Cildo Meireles, Eleonora Koch, Carlos Zilio, Claudio Tozzi, Evandro Teixeira, Gilvan Barreto, Jaime Lauriano, Laís Myrrha, Leila Danziger , Giselle Beiguelman, Carmela Gross, Dora Longo Bahia, Clara Ianni, Rosana Paulino. Marilá Dardot, Marcelo Moscheta, Walmor Corrêa. entre outros. e artistas internacionais como Lucio Fontana, Luciano Fabro, Mario Merz, Michelangelo Pistoletto, Mimmo Paladino, Gilberto Zorio, Enrico Baj, Alighiero Boetti, Giovanni Anselmo, Maurizio Catellan.

 

 

Inéditos de Arjan Martins

10/out

A Gentil Carioca, Higienópolis, São Paulo, SP, exibe até 12 de novembro “Hemisfério 1”, exposição individual de Arjan Martins.

Na mostra de trabalhos inéditos, o artista investiga questões raciais históricas em função da arte, utilizando-a também como subsídio. Em suas obras, retrata corpos que sugerem a visualização do mestiço, do índio e do negro – repondo estas reflexões à mesa, ainda que evitando resquícios sectários.