Inéditos de Arjan Martins

10/out

A Gentil Carioca, Higienópolis, São Paulo, SP, exibe até 12 de novembro “Hemisfério 1”, exposição individual de Arjan Martins.

Na mostra de trabalhos inéditos, o artista investiga questões raciais históricas em função da arte, utilizando-a também como subsídio. Em suas obras, retrata corpos que sugerem a visualização do mestiço, do índio e do negro – repondo estas reflexões à mesa, ainda que evitando resquícios sectários.

 

O lugar do corpo

07/out

 

A Belizario Galeria, Pinheiros, São Paulo, SP, exibe até 12 de novembro a coletiva “Escrever outros Corpos – Criar outras Margens”, com Estêvão Parreiras, Laura Gorski, Marcelo Solá, Raquel Nava, Stella Margarita e Sara Não Tem Nome + Juliana Franco, Rafael Abdala, Victor Galvão, composta por 32 trabalhos que “apresentam múltiplos desafios e fricções que visam interrogar o lugar do corpo”, como define a curadora da mostra Bianca Dias.

De acordo com o conceito curatorial pelo qual optou Bianca Dias, os diversos trabalhos, com técnicas distintas suportes múltiplos, “visam investigar o corpo num movimento que vai desde a pulsação visual e onírica, passando pela dimensão da animalidade e do feminino. O corpo será pensado além de si, ocupando o espaço circundante e interagindo com outros corpos e os seus prolongamentos”.

Os desenhos de Estevão Parreiras, com traços exatos e formas estruturantes, transmitem sua forma de comunicação com o mundo, uma vez que para o artista, desenhar é como escrever. “O desenho é a maneira pela qual Estevão habita seu próprio corpo e o mundo. No universo de seus desenhos, as paisagens surgem estrangeiras e como emissárias de outro mundo, paradoxalmente impregnadas de uma realidade ambígua”, diz a curadora. Já nos traços de Laura Gorski, o corpo ocupa o centro do trabalho. “A partir de técnicas diversas com pigmentos, texturas e espessuras distintas, a artista inclui no seu trabalho a transfiguração do visível através da relação com a terra e seus frutos e ecos”, diz Bianca. As obras de Marcelo Solá agrupam arquiteturas fantásticas e bichos que, através do desenho e da serigrafia, são aplicados numa sistemática sem fim. Animais e formas arquitetônicas muito singulares se embaralham e conduzem a espaços atemporais. Os trabalhos de Raquel Nava, compostos por objetos do cotidiano e partes de animais, dialogam com a pintura e se desdobra em experiências diversas, sinalizando o interesse por questões corpóreas e de natureza material. Já para Stella Margarita, sua pintura “se ancora numa tentativa de fuga às margens da representação, encontrando ritmo em plena queda. A dimensão do acontecimento surge nas entranhas do inconsciente e, por isso, fascina, encanta e causa certa perplexidade”, explica a curadora.

Fechando a seleção curatorial, um coletivo experimental entre quatro artistas – Juliana Franco, Rafael Abdala, Sara Não Tem Nome e Victor Galvão – criam a série de fotografias “Apneia”, onde na série de obras densas e monocromáticas possui um último registro imagético com uma sutil abertura para a “cor”, ainda que sutil, do mesmo corpo capturado em movimento suspenso. “O diálogo que acontece nesta exposição se dá por vibração e contágio. Em uma zona fronteiriça – um espaço tão visível quanto invisível – o conjunto de obras forja um corpo que produz devires em potencial.” Bianca Dias

Sobre a curadora

Bianca Dias é psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado – FAAP (2011). Graduada em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora – CES (2002). Fundou e coordenou o Núcleo de Investigação em Arte e Psicanálise do Instituto Figueiredo Ferraz – IFF(Ribeirão Preto/SP 2012-2015). Participou do grupo Redes de Pesquisas Escritas da Experiência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ. Co coordena o Projeto de Cinema e Psicanálise Cine-Cult USP Ribeirão Preto, em parceria com o Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade – CLIN-A.

Sobre a galeria

A Belizário Galeria, com sede no bairro de Pinheiros em São Paulo, é o resultado de uma parceria entre Orlando Lemos, José Roberto Furtado e Luiz Gustavo Leite. Sua proposta visa se apresentar como uma opção adicional de participação e visibilidade da produção de artistas emergentes e consolidados no panorama da arte contemporânea brasileira no circuito paulistano de cultura. A galeria se junta ao movimento que busca promover horizontes que estabeleçam novos meios de redirecionar e ampliar o mercado de arte, pensando nas diferentes trajetórias e produções artísticas que o compõe. Assim, visando a fomentação da diversidade cultural intrínseca na contemporaneidade, serve de palco para artistas novos e estabelecidos, nacionais e estrangeiros, em parcerias com curadores que também estejam imbuídos do mesmo propósito. Na Belizário Galeria, procura-se atender a um público que busca a aquisição de trabalhos artísticos e, também, a criação e fomento de novas coleções. O seu acervo é composto por diferentes temas e estéticas, mediante o universo poético de cada artista. Seu repertório abrange trabalhos artísticos de diferentes linguagens, suportes, técnicas e mídias como desenho, escultura, fotografia, gravura, pintura, objetos, instalação e outras.

 

 

Frenhofer Retratado

 

O artista visual Carlos Matuck exibe até 12 de novembro no Atelier Galeria Priscila Mainieri, Vila Madalena, São Paulo, SP, série de pinturas e desenhos sob a títulação geral de “Frenhofer Retratado”.

Labirinto evoca o aflitivo sem saída. Os labirintos propostos pelas pinturas e desenhos de Carlos Matuck, porém, invertem essa noção: neles o difícil é entrar e, uma vez lá dentro, não se quer sair. O prazer do passeio por suas galerias e câmaras é semelhante ao proporcionado por uma história bem escrita. O que faz sentido, pois Frenhofer, retratado em todos os 63 trabalhos da exposição, é personagem central da novela A Obra-Prima Ignorada (Le chef-d’oeuvre inconnu), de Honoré de Balzac, publicada em 1831 e revisada em 1837, edição em que Frenhofer, ao final…

O fictício Mestre Frenhofer, alma romântica deslocada por Balzac para o início do século XVII, ecoa Pigmaleão e prenuncia Gepetto: apaixona-se perdidamente por Catherine Lescault, musa-mulher-quadro jamais concluído que pinta às escondidas ao longo de dez anos, sempre angustiado. O pintor inventado é discípulo do existido Mabuse (1478-1535) e contracena com seus colegas, também reais, Poussin (1594-1665) e Porbus (1570-1622).

As questões sobre arte e pintura por eles discutidas atingem o ápice quando, após muitas negociações, Frenhofer finalmente permite que Porbus e Poussin conheçam Catherine, que não existe a não ser na pintura A linda pentelha – assim intitulada pelo próprio Mestre. Para supresa dos dois, no quadro não conseguem ver nada além de “cores confusamente espalhadas umas sobre as outras, contidas por uma multidão de linhas bizarras que formam uma muralha de pintura”. Identificam apenas, num dos cantos, um pé, um delicioso pé, um pé vivo que emerge da caótica neblina, preservado da destruição. Como enuncia Teixeira Coelho, “Balzac escrevia uma alegoria ambígua e indecisa, por isso fascinante, do surgimento se não da arte moderna e contemporânea, pelo menos do artista moderno e contemporâneo.”

Tais questões refletem o que muitos artistas investigavam na pintura e na literatura produzidas na primeira metade do século XIX e, anacronismos à parte, muitas delas adiantando-se as que serão tratadas por Monet, Manet, Cézanne, Picasso, e ainda rondarão as pinturas abstracionistas-expressionistas e neoexpressionistas da segunda metade do século XX. Esse manancial de referências visuais, somado a ensaios filosóficos, literários e à reclusão pandêmica orientaram os três últimos anos de pesquisa e produção de Carlos Matuck, inaugurando, muito provavelmente, a fase madura de um trabalho iniciado há 50 anos.

Os quadros, feitos com tintas acrílicas sobre papel – utilizando penas de metal, de vidro, de madeira, pincéis de variados tipos e procedências, esponjas etc. – posteriormente montados em telas de acordo com rigorosos padrões de conservação, seguem procedimentos sui generis que combinam paradoxalmente jorros de pintura e controle técnico.

As referências, pontos de partida anteriormente fotográficas, são agora obras de pintores mencionados na novela e por seus inúmeros comentaristas – entre outros Adão e Eva, de Mabuse; Ninphe Surprise, de Manet; Estudo para Maria Magdalena, de Rubens. Tais imagens são trabalhadas de maneira tal que, restando vagamente aludidas, trazem, em sua carne, possíveis retratos de Frenhofer e, em sua pele, Catherine Lescault e Gillete, outra personagem-chave da novela. E, não raro, um pé.

Em relação às fases anteriores do percurso de Carlos Matuck essas pinturas abandonam um certo quê caricatural, mas de forma alguma renegam o humor. Também guardam a produção seriada (a seleção para a exposição foi feita a partir de acervo de aproximadamente 150 obras), evocando, em paralelo ao que escreve Barthes sobre fotografia, a ideia de linhagem, a busca, pela insistência, de uma alegoria da persistência da espécie. Ao mesmo tempo, há o comum entre os elementos constituintes das séries, o que oferece ao vedor o prazer da busca de enigmáticas diferenças entre iguais, acirrando a disputa entre o olhar e o ver. Ainda outros movimentos derrogatórios podem ser observados na série de desenhos e aguadas monocromáticas também exposta em Frenhofer Retratado.

São feitos em papéis impressos, uns sobre páginas de enciclopédias antigas, outros sobre mapas. O que não mudou foram os cuidados de conservação, desde o tratamento de limpeza e prevenção de fungos dos papéis antigos até a aplicação de vernizes protetores. Mudou sim a seleção das páginas e mapas a serem combinadas entre si, que agora foram escolhidas em função do que nelas houvesse para estruturar visualmente os retratos de Frenhofer, e para combinar ou gerar conflitos entre significados. Em um mapa uma ilha surgere uma boca, em outro uma península parece um bigode… Carlos Matuck os vai justapondo de modo a estruturar um rosto. Sobre essa estrutura lança traços e manchas de modo aparentemente aleatório, sempre tendo em mente e à vista referências pertinentes ao universo frenhoferiano: Rembrandt, por exemplo, está presente em vários dos trabalhos. Mais uma vez, são simultâneas as alusões ao próprio retratado, à Catherine e à Gillete, que compõem juntamente com arquipélagos, besouros e outros que tais rostos que olham profundamente de volta a quem se der ao trabalho de os ver. Assim são os labirintos de Frenhofer Retratado. Quem quiser neles penetrar ganhará, de brinde, um brinde com o Minotauro.

 

 

Na Galeria São Paulo Flutuante

06/out

 

Ter um olhar atento para novos artistas sempre foi uma marca de Regina Boni desde a sua época na Galeria São Paulo. Desde que abriu a S P Flutuante em fevereiro de 2021, não foi diferente. Já se foram cinco exposições e, agora, o amplo galpão na Barra Funda recebe dois jovens nomes. O paulistano do Capão Redondo R.Trompaz e a sergipana Fabiana Wolf. Primeira individual de ambos em galerias, eles se identificam nas linhas, na intensidade de preencher os espaços de suas plataformas, as intersecções das ideias entre o social, a periferia, o feminino e a urbe. Enquanto R.Trompaz, de 33 anos, explora a cidade andando quilômetros a pé, Fabiana deixou Aracaju aos 18 anos para tentar a vida de artista na capital paulista. Ele se formou em Design Gráfico na Belas Artes. Fabiana começou e deixou cerca de seis faculdades.

Admirador de Lívio Abramo e Artur Barrios, R.Trompaz produziu muito em PB, mas para a exposição que seguirá até 24 de novembro ele colocou cores nas obras. Serão 20 no total, de desenhos com caneta ponta de feltro  a pintura em acrílica e verniz acrílico com pigmento em pó, processos de reprodução negativados nos quais usa  uma técnica de guache sobrepondo com nanquim. R.Trompaz utiliza a arte como meio de expressão e crítica social, principalmente por meio do projeto Segregação Social Geograficamente Escancarada (SSGE). “É a minha concepção de um fazer sobre a condição de vida das periferias e suas contradições”, comenta.

Com 26 anos, Fabiana realiza seus trabalhos em um ateliê no bairro do Cambuci e exerce o seu fazer artístico e político em grandes telas que chegam a 5 metros utilizando técnica mista, giz, pastel oleoso, seco e tinta acrílica. Para essa mostra na São Paulo Flutuante ela pretende levar de 10 a 12 trabalhos, todos realizados ao longo de 2022, portanto inéditos.

A palavra dos curadores

Para Regina Boni, curadora e proprietária da SP Flutuante, o trabalho de Fabiana emociona: “Já comecei a redigir o texto curatorial algumas vezes, mas me deparo muito mais com uma emoção profunda do que qualquer categorização ou análise teórica”. “Acho o trabalho da Fabiana extremamente maduro para uma jovem artista. Não tenho dúvida sobre o caminho promissor que ela terá. Para mim, é muito claro”, complementa Regina.

Já para Manu Maltez, artista visual, músico e co-curador da galeria, o trabalho de R.Trompaz é quase uma síncopa de notas sobre a pauliceia e suas discrepâncias: “R.Trompaz cria um abcdário próprio. Usa dos signos para produzir um dialeto das ruas, sobrepondo elementos gráficos. É uma partitura. Quando olho para os seus quadros é como se sentisse ruídos saindo deles”, analisa. “Quando estava elaborando o material gráfico a ligação poética entre os dois artistas ficou evidente. São artistas densos, trabalham com o excesso, ambos têm a denúncia presente em suas obras mas trazem ao mesmo tempo um primor estético,  uma inesperada leveza; alcançam uma beleza inusitada. São as contradições da arte, por isso ela existe, resiste”, afirma Manu Maltez.

A palavra dos artistas

“Conheci o trabalho da Fabiana agora no momento da produção e fiquei feliz, pois a linguagem conversa bastante comigo quando você foca nos detalhes, no preenchimento. Tenho horror a espaços vazios. Acho que ela também”, diz R.Trompaz.

“Meu trabalho reflete muito da minha busca interna e política. A política é importante na minha vida. Ela se apresenta na obra. Sobretudo uma revolta muito presente. Fiquei feliz de imediato quando vi o trabalho do R.Trompaz. Se as nossas linhas se cruzam nos processos de intersecção, nossa poética fala alto dentro de um viés de insurgência”, avalia Fabiana.

 

 

Representação do acervo de León Ferrari

 

 

A Fortes D’Aloia & Gabriel e a Gomide&Co, São Paulo, SP, anunciam a representação conjunta do acervo de León Ferrari (Buenos Aires, 1920 – 2013). Um dos mais importantes artistas do século XX, León Ferrari desenvolveu uma obra provocativa, singular, escorada na experimentação com suportes e materiais, e de forte cunho político. Herdeira da imaginação surrealista, sua produção dialogou com a abstração, com a pop art e foi pioneira no conceitualismo latino-americano.

A correpresentação de León Ferrari propõe uma atualização de seu legado. Juntas, as galerias visam ampliar o alcance e a influência de sua obra no debate contemporâneo. A Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta na Paris+ par Art Basel, em outubro, uma seleção de obras de Ferrari em diálogo com artistas jovens de seu programa. A Gomide&Co, por sua vez, levará trabalhos pontuais de Ferrari para seu stand em Art Basel Miami Beach, em dezembro.

 

O passado e o presente em Rosário López

05/out

 

A galeria Marli Matsumoto Arte Contemporânea, Sumarezinho, São Paulo, SP, apresenta “Tapizar el Paisaje”, da artista colombiana Rosário López. A exposição apresenta trabalhos recentes e inéditos, incluindo instalações, fotografias, esculturas e uma intervenção site-specific no local, ocupando o pátio da galeria. “Tapizar el Paisaje” compreende uma pesquisa iniciada em 2017, uma exploração artística que habita um lugar onde o território é visto como matéria e brinca com a percepção do espectador, dando forma ao invisível ou transformando uma formação geológica pesada em uma construção leve.

 

A mostra “Tapizar el Paisaje”, fundamentada na descoberta dos Tapices del Apocalípsis, do século XIV, (atualmente em Castillo de Angers, França), que estampam cenas apocalípticas retratando forças primárias de destruição e morte, misturadas a seres fantásticos e anjos. Rosário López orienta-se por esta série de tapeçarias contrastando os tempos históricos à tradição têxtil local de San José de Suaitá, no norte da Colômbia.

 

“As questões que emergem deste diálogo captam este momento da história em que apocalipse e antropoceno parecem se tornar espelhos de tempos históricos do passado e do presente”, diz a curadora. Como a definição de território vem mudando? O que constitui a ética do cuidado? Quais as nossas responsabilidades para com o planeta em transformação, e como nosso espaço está sendo afetado por nossas próprias ações? Tais questões são levantadas por esta exposição, centrada em dois eixos: primeiro, a representação do território e suas metamorfoses; segundo, a relação entre comunidades sociais e a terra, e a maneira com que os corpos relacionam-se com ela.

 

Enquanto os visitantes percorrem a exposição, deparam-se com dois espaços, ambos preenchidos por tecidos usados sobre os quais a artista interveio através de recortes, bordados e técnica mista, que dialogam com duas séries de fotografias: uma delas colorida, retratando a antiga tapeçaria francesa, e outra em preto e branco, que tem como tema a fábrica têxtil na Colômbia. O segundo espaço apresenta uma série de maquetes, estudos e pequenos objetos.

 

Concebida como uma exposição que atravessa diferentes épocas, estabelecendo uma ponte entre o passado e o presente, “Tapizar el Paisaje” fornece pistas para pensarmos o território e a realidade atual de um planeta à beira do colapso. Nesta intersecção de tempos e referências, as obras contemporâneas de Rosário López ganham força e relevância. Como resultado, a prática da artista passa por uma análise sociológica do desastre (e das ruínas) proveniente de uma conexão silenciosa, embora profunda, com a terra, revelando assim sua reinterpretação estética.

 

No contexto brasileiro, “Tapizar el Paisaje” é apresentada em um período de enorme instabilidade pós-pandêmica e incerteza social e política. Em tempos como este, à medida em que o mundo muda rapidamente diante de nossos olhos, a artista visual Rosario López explora experiências espaciais e corpóreas para nos levar a outras formas de pensar e de lidar com a paisagem em um outro ritmo, mais reflexivo e contemplativo, que visa desafiar nossas próprias ações em relação a ela.

 

Está marcada uma conversa entre artista e a curadora para o sábado, 08 de outubro às 16h30.

 

Acervo em Araraquara

03/out

 

A mostra “Ausente Manifesto” é uma parceria do Museu de Arte Moderna de São Paulo e o Sesc São Paulo, Araraquara, São Paulo, SP, permanecerá em cartaz até 11 de dezembro e reúne obras do acervo do MAM-SP e de seu clube de colecionadores. As obras escolhidas inspiram a premissa da ausência percebida, evidenciam o que não está presente ao espectador, remontando ao que está invisível e que pode ser imaginado, ganhando concretude a partir do olhar do público.

“Ausente Manifesto”, com curadoria de Cauê Alves – curador do MAM, e Pedro Nery – museólogo da instituição, traz o trabalho de artistas contemporâneos que transpõem as divisões sedimentadas das linguagens artísticas, trazendo à tona um jogo entre desenho e instalações, vídeo e imagem, fotografia e representação.

Os trabalhos selecionados ganham concretude a partir do olhar do público, como no caso da obra de Regina Silveira, que projeta uma sombra de um móbile de Alexander Calder esparramando pela parede, distorcendo a peça que está ausente; ou Mácula, de Nuno Ramos, que mostra uma foto tirada diretamente para o sol e que revela um halo de luz, com inscrições em braile, criando visualidade de uma experiência primordial de significação. No jogo irônico da obra Working Class Hero, da série The Illustration of Art, de Antonio Dias, o artista se filma comendo um prato de arroz e feijão e depois lava a louça usada, colocando em questão a idealização simbólica da produção artística e do museu. “Assim, é das próprias obras que temos a experiência de espectadores da produção simbólica, e de seu questionamento”, dizem os curadores. O telhado de Marepe faz uma miragem de uma casa completa, com janelas, paredes e portas, e na obra de Damasceno é possível ver um homem que olha um quadro feito do instrumento que permite desenhar, dessa forma, o olhar do público é que confirma e atribui essas condições.

Na exposição, sente-se a ausência do objeto e, ao mesmo tempo, é possível imaginá-lo pendurado ali. Esse preenchimento é justamente o universo simbólico pretendido. “Falar do que não está presente é, na verdade, o tema central do museu. Os objetos expostos, guardados e preservados, estão lá por seus valores simbólicos, por exemplo, um simples lápis quando entra para a coleção de um museu, deixa de servir à escrita e passa apenas a atender ao olhar do visitante”, comentam os curadores.

A exposição reforça um caráter inusitado e, por vezes irônico, da arte contemporânea em deturpar a lógica de representação dos objetos que são reconhecidos por suas utilidades, estabelecendo, dessa forma, uma ordem diferente entre o que é representar e criar. A arte é produtora do simbólico de nascença, ou seja, quando criada ela não tem uma utilidade prática.

Artistas que integram a mostra: Adriana Varejão, Angela Detanico, Anna Bella Geiger, Antonio Dias, Cao Guimarães, Carlito Carvalhosa, Cinthia Marcelle, Coletivo Garapa, Dora Longo Bahia, Ernesto Neto, Fabiano Marques, Fabrício Lopez, Gabriel Acevedo Velarde, Gilvan Barreto, Jonathas de Andrade, José Damasceno, José Patrício, Lenora de Barros, Lucia Koch, Marcius Galan, Marepe, Matheus Rocha Pitta, Mídia Ninja, Milton Machado, Milton Marques, Nelson Leirner, Nuno Ramos, Rafael Lain, Regina Silveira, Rivane Neuenschwander, Romy Pocztaruk, Sara Ramo, Tadeu Jungle, Thiago Bortolozzo, Thiago Honório e Waltercio Caldas.

 

Na Galeria Raquel Arnaud São Paulo

 

Encontra-se em cartaz até 05 de novembro duas exposições na Galeria Raquel Arnaud, Vila Madalena, São Paulo, SP. São elas: Shirley Paes Leme e Nuno Sousa Vieira.

“Suspiro em vão” de Shirley Paes Leme exibe obras poéticas que relacionam o tempo, o ar e o caos da cidade grande, enquanto “Um entre nós” de Nuno Sousa Vieira tensiona as hierarquias entre o espaço e o espectador.

As obras de Shirley Paes Leme que compõem a mostra “Suspiro em vão”, reúne cerca de 20 obras, a curadoria tem como eixo-central duas séries bastante conhecidas da artista, que têm sido trabalhadas há anos. A primeira consiste em composições geométricas feitas a partir de filtros de ar-condicionado de automóveis. Estes, tingidos com a poluição da cidade, são meticulosamente trabalhados através da extração de resíduos, adquirindo múltiplos tons de cinza e fazendo alusão aos arranha-céus das grandes metrópoles. Já na segunda, frases como “O invisível mais longe”, “Respiração”, “O ar uma miragem”, “Tempo” e “O pó habita” são extraídas de seu caderno de poemas e anotações, materializando-se em relevos de bronze e pátina preta feitos a partir de sua própria caligrafia. Todas as frases em forma de obra também foram incluídas no texto crítico de Paula Borghi. A cidade, o tempo, os resíduos, a fumaça, o pó, o ar, a respiração. São todos temas recorrentes na produção de Shirley Paes Leme e o ponto de encontro entre as duas séries da exposição. São obras que nascem de experiências e reflexões da artista a partir das coisas mais simples, e ao mesmo tempo complexas, da vida.

A exibição individual “Um entre nós” de Nuno Sousa Vieira, conta com texto crítico de Jacopo Crivelli Visconti. Com uma série de desenhos, uma pintura e uma escultura, montada no jardim, que se conecta de forma intrínseca com as obras do espaço expositivo interno, esta exposição reforça a relação entre o dentro e o fora, a frente e o verso. Nuno propõe uma “desierarquização” entre as obras em si, mas também entre a obra e o público que, como diz o artista, também assume o seu lugar, visto que é parte da sua condição não apenas justificar a existência da obra, como também lhe conferir posteridade. O artista comenta: “No meu trabalho, as obras são o resultado de uma ação politicamente igualitária na qual as hierarquias, por um lado, se dissipam, mas, por outro, são questionadas; e o raso está em pé de igualdade com o que se encontra numa conta mais elevada; o interior está empatado com o exterior; a frente e o verso são simultaneamente a mesma face de um mesmo plano, até porque nenhum dos demais pode existir sem o outro”.

 

Ensacamento

 

Depois de dez anos da última individual do grupo no Centro Cultural São Paulo, os trabalhos do 3NÓS3 voltam a ocupar a cena artística, num momento de grande movimentação política, com individual até 05 de novembro na Galeria Jaqueline Martins, Vila Buaque, São Paulo, SP.

O coletivo formado por Hudnilson Jr. (1957-2013), Mario Ramiro (1957) e Rafael França (1957-1991), com atuação entre 1979 e 1982, teve um importante papel na arte brasileira no período de reabertura democrática, ao final da Ditadura. Para aquela geração de artistas a arte do momento era alternativa, marginal, underground, de contestação e derivada da contracultura dos anos 1960.

Em 1979, 11 anos depois do fim do Tropicalismo e do decreto do AI-5, uma arte urbana coletiva e crítica ressurgia com força no Brasil, quando o 3NÓS3 realiza suas intervenções urbanas esteticamente marginais – como o ensacamento de monumentos públicos da cidade de São Paulo – ao lado da crítica cultural e de intervenção na mídia.

A mostra exibe um conjunto de obras criadas ao longo dos três anos de atividade do grupo e reintroduz seu trabalho a uma nova geração de público, evidenciando a relevância de sua produção 40 anos depois de sua criação. São intervenções urbanas, fotografias, vídeos e arte postal que circularam também virtualmente, como informações pelos meios de comunicação, parte essencial dos trabalhos do grupo.

“O trabalho do 3NÓS3 tem uma capacidade fantástica de se manter atualizado. Toda a produção deles foi, em si, uma posição política de resistência. É uma arte de guerrilha: artistas que criaram ferramentas para driblar a opressão, a caretice e o conservadorismo político e social. Hoje estamos na mesma, e os artistas estão criando suas ferramentas novamente para driblar essa censura”, conta a diretora e fundadora da galeria, Jaqueline Martins.

A exposição também acontece simultaneamente em Zurique sob o título 3Nós3, Rafael França, Hudinilson Jr., Mario Ramiro – Above all, They Had No Fear of Vertigo, a partir do dia 28 de outubro, na galeria Peter Kilchman.

 

Dois escultores na Central Galeria

 

A Central Galeria, Vila Buarque, São Paulo, SP, apresenta até 12 de novembro, “Opositores” exposição de Dora Smék e Paul Setúbal, realizada em parceria com a Casa Triângulo e com texto assinado por Benjamin Seroussi. Refletindo o momento de crescentes tensões sociais no país, os artistas apresentam um projeto instalativo formado por esculturas de bronze e correntes que cruzam todo o espaço da galeria, buscando ampliar o debate a respeito da democracia e das polaridades políticas, éticas e territoriais.

“Opositores” compreende uma série de esculturas criadas colaborativamente por Dora Smék e Paul Setúbal em 2017, até então inéditas. Feitas em bronze a partir dos moldes das mãos dos artistas, elas são unidas e posicionadas como em um jogo infantil – a “guerra de polegares”, cujo objetivo é capturar o polegar do outro usando apenas o próprio polegar. No trabalho da dupla, porém, o movimento dos dedos não aponta nenhum vencedor: cristaliza-se o momento da disputa, dilatando a sensação de impasse e tensão permanente.

Para a exposição, os artistas apresentam as esculturas através de um sistema de tensionamento que envolve o uso de correntes, ganchos e esticadores de aço dispostos como vetores, valendo-se das colunas de concreto da Central. As correntes atravessam o espaço expositivo em diferentes direções, criam obstáculos de passagem e acentuam ainda mais a relação de oposição entre cada um dos movimentos.

Sobre os artistas

Dora Smék (Campinas, 1987) vive e trabalha em São Paulo. Dentre suas exposições recentes, destaca-se a individual “A dança do corpo sem cabeça” na Central Galeria (São Paulo, 2021), além das coletivas: 13ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2022); Arte em Campo, Estádio do Pacaembu (São Paulo, 2020); No presente a vida (é) política, Central Galeria (São Paulo, 2020); Arte Londrina 8 (Londrina, 2020); Hinter dem Horizont, Reiners Contemporary Art/Sammlung Jakob (Freiburg, Alemanha, 2020); “Cuerpos Atravesados”, Reiners Contemporary Art (Marbella, Espanha, 2020); Mulheres na Arte Brasileira: Entre Dois Vértices, CCSP (São Paulo, 2019); 47. Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (Santo André, 2019); 13. Verbo, Galeria Vermelho (São Paulo, 2017). Sua obra está presente em coleções públicas como o Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro) e o Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro), entre outras.

Paul Setúbal (Aparecida de Goiânia, 1987) vive e trabalha em São Paulo. Realizou exposições individuais em: Museu da República (Rio de Janeiro, 2022); C. Galeria (Rio de Janeiro, 2022 e 2018); Casa Triângulo (São Paulo, 2021); Andrea Rehder Arte Contemporânea (São Paulo, 2016); Elefante Centro Cultural (Brasília, 2015). Dentre as exposições coletivas, destacam-se: 40° Arte Pará, Casa das Onze Janelas (Belém, 2022); No presente a vida (é) política, Central Galeria (São Paulo, 2020); Aparelho, Maus Hábitos (Porto, 2019); 36º Panorama da Arte Brasileira, MAM-SP (São Paulo, 2019); 29º Programa de Exposições, CCSP (São Paulo, 2019); Demonstração por Absurdo, Instituto Tomie Ohtake (São Paulo, 2018); “Arte, democracia, utopia”, Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro, 2018); entre outras. Sua obra está presente em coleções públicas como o Museu de Arte do Rio (Rio de Janeiro), o Museu de Arte de Brasília e o Museu de Arte Contemporânea de Goiânia, entre outras