Esculturas de Flávio Cerqueira.

09/dez

“Eu penso a escultura como o instante pausado de um filme”, explica Flávio Cerqueira ao comentar sua carreira, que chega à marca de 15 anos com uma retrospectiva individual inédita no CCBB São Paulo, com curadoria de Lilia Schwarcz, historiadora, antropóloga e imortal da Academia Brasileira de Letras.

A declaração do artista joga luz sobre o forte teor de narrativa que imprime em suas obras, com esculturas figurativas em bronze que convidam o público a completar as histórias contidas em cada detalhe de personagens tipicamente brasileiros.

“Muito vinculada a uma certa história ocidental, a escultura em bronze celebrava o privilégio de homens brancos. Insurgindo-se contra essa narrativa, Flávio Cerqueira seleciona pessoas que observa no dia a dia, imersas em seu próprio cotidiano, e as eleva no bronze. São personagens representados de maneira altiva, com respeito, quase de maneira filosófica”, comenta a curadora.

Reconhecidas pela originalidade e riqueza de detalhes, as esculturas de Cerqueira ocupam todos os andares e o subsolo do prédio histórico do CCBB no centro da capital paulista – no térreo, os visitantes vão encontrar “O jardim das utopias”, uma seleção de trabalhos pensados para áreas abertas, que exploram a temática das fontes ornamentais e esculturas instaladas em praças públicas. “A busca por uma mudança do eu e o desejo de criar um lugar imaginário norteiam essa ilha de possibilidades, muitas vezes utópicas, mas que trazem leveza ao cotidiano caótico da existência”, afirma o artista sobre as obras que vão dar as boas-vindas aos visitante.

“Meu fazer artístico é o processo de transformação pelo qual passa cada material até se tornar uma escultura: a cera de abelha misturada com óleos e um pó de barro peneirado que transformo em platina e que, modelada por minhas mãos, se torna uma figura. As misturas das ligas metálicas como cobre, estanho, chumbo, zinco, ferro e fósforo derretidos a mais de mil graus centígrados que, despejadas em um bloco de areia com dióxido de carbono, eternizam essas formas modeladas em um dos mais nobres materiais da escultura, o bronze”.

Sobre o artista

Flávio Cerqueira nasceu em São Paulo, em 1983, onde vive e trabalha. Sua graduação em artes plásticas o introduziu na linguagem escultórica, pesquisa que aprofundou no mestrado e doutorado na Universidade Estadual Paulista. Em sua prática, especializou-se nos processos tradicionais de fundição em bronze. Por meio dessas técnicas milenares, o artista captura momentos singulares de situações cotidianas e os transforma em questões centrais de sua poética.

Até 17 de fevereiro de 2025.

Moda brasileira no Itaú Cultural.

03/dez

Artistas do vestir: uma costura dos afetos é a mostra que encerra o calendário de grandes exposições do Itaú Cultural, São Paulo, SP. Com curadoria de Carol Barreto e Hanayrá Negreiros, “Artistas do vestir” perpassa grupos diversos do pensar e fazer moda brasileira – com foco em artistas que trabalham com temáticas e grupos ancestrais, em um amplo leque como as Bordadeiras do Curtume do Vale do Jequitinhonha, Ekedy Sinha, Fernanda Yamamoto e Lino Villaventura. Além de obras que abordam temáticas contemporâneas ligadas a questões políticas, de gênero, raciais e performáticas, em uma mescla de nomes da moda brasileira – entre eles, Alexandre Herchcovitch, Dudu Bertholini, Fause Haten, Jal Vieira, João Pimenta, Lab Fantasma, Maxwell Alexandre, Sioduhi e Vicenta Perrota. E por fim, a mostra também apresenta desenhos e costuras contínuas de um ateliê de moda; um espaço que também irá acolher performances, esculturas têxteis e oficinas.

Em cartaz até 23 de fevereiro de 2025.

Exibição com sala interativa.

02/dez

A Casa Roberto Marinho, Cosme Velho, Rio de Janeiro, exibe a exposição inédita “Geometria inquieta”, na qual reuniu mais de cem obras do artista Ascânio MMM, de 83 anos, e conta com a curadoria de Lauro Cavalcanti. A mostra abrange trabalhos que se estendem por seis décadas da carreira do artista.

Entre as atrações, haverá uma reprodução do ateliê de Ascânio MMM, localizado no bairro do Estácio, e uma sala interativa onde o público poderá manipular algumas obras. Além disso, esculturas do artista estarão expostas nos jardins do casarão, que foram originalmente projetados por Roberto Burle Marx.

A exposição promete uma experiência única, permitindo que os visitantes não apenas apreciem as obras, mas também interajam com elas. A iniciativa visa destacar a trajetória e a versatilidade de Ascânio MMM, um dos nomes importantes da arte contemporânea brasileira.

A Casa Roberto Marinho, conhecida por promover a cultura e as artes, se torna mais uma vez um espaço de relevância para a difusão da arte, ao abrir suas portas para esta significativa mostra.

A complexidade da Arte Brasileira.

O MAM Rio reabriu ao público dia primeiro de dezembro com a mostra “Uma história da arte brasileira”, que foi vista pelos Chefes de Estado e líderes presentes no G20. Como legado do evento ao museu e à cidade, o Bloco Escola será entregue reformado, e é lá que a exposição está sendo remontada.

O icônico prédio do Bloco Escola, com seus característicos cobogós, foi o primeiro espaço do museu quando inaugurado, em 27 de janeiro de 1958. O bloco que passaria a alojar as futuras exibições só foi inaugurado em outubro de 1967, ou seja, nove anos depois de inaugurado o primeiro edifício.

Em 1959, lá aconteceram os primeiros cursos do Atelier de Gravura. Dentre as exposições ali realizadas, destacam-se algumas que marcaram não apenas a história do museu, mas também da própria História da Arte Moderna no Brasil, como a “Exposição Neoconcreta” (1959); as mostras “Opinião 65” e “Opinião 66” (realizadas respectivamente em 1965 e 1966); e a “Nova Objetividade Brasileira” (1967).

As obras realizadas pela prefeitura incluem, além da limpeza dos cobogós, a regularização das muretas da laje, que ganhou novas pedras em granito, a impermeabilização de pisos e jardineiras, a execução de infraestrutura elétrica; reformas em pisos, paredes e teto de salas internas e o restauro da sala onde era o antigo depósito de filmes no Bloco Escola, além do restauro do chafariz, ali em frente.

Com curadoria de Pablo Lafuente e Raquel Barreto, a exposição reúne aproximadamente 65 obras, incluindo pinturas, esculturas e fotografias, de nomes consagrados como Tarsila do Amaral, Cildo Meireles, Lygia Clark, Adriana Varejão, Di Cavalcanti e Tomie Ohtake. O objetivo é explorar a diversidade e a complexidade da Arte Brasileira ao longo de mais de um século.

Vale conferir a nova mostra (desenvolvida a partir do acervo do MAM Rio) e as novas instalações do prédio.

Doações em exposição no Paço Municipal.

29/nov

O Museu de Arte do Paço Municipal, Praça Montevidéu, Centro Histórico, Porto Alegre, RS, abriu a exposição “Doações de Rolf Zelmanowicz”. Esta mostra – com curadoria de Ana Laggazio, Victor Dalagnol e Magnólia Leão – apresenta um recorte da doação recebida em junho de 2023 pela Prefeitura de Porto Alegre, reunindo artistas, técnicas e épocas distintas. Nesta seleção – adquiridas durante a vida de Rolf Zelmanowicz -, foram selecionadas algumas obras de artistas destacados, relevantes e atuantes no Rio Grande do Sul ao longo do século XX.

Sobre o colecionador

Rolf Udo Zelmanowicz (Alemanha, 1931 – Porto Alegre, 2023) foi um médico, professor e empresário que, junto com a esposa Elisabete de Medeiros Zelmanowicz (Porto Alegre, 1940, de formação pelo Instituto de Belas Artes) exerceu o papel de mecenas, estimulando diferentes vertentes culturais e proporcionando visibilidade a artistas que, segundo ele próprio, “…mereciam o devido reconhecimento de suas expressões, fossem desenhos, pinturas ou esculturas”.

Artistas participantes:

Alice Soares, Antônio Caringi, Angelo Guido, Antonio Carlos Maciel, Augusto Luiz de Freitas, Carlos Tenius, Danúbio Gonçalves, Elisabete Zelmanowicz, Ernesto Frederico Scheffel, Francis Pelichek, Glenio Bianchetti, Guma, João Fahrion, João Luiz Roth, José Lutzenberger, Léo Dexheimer, Leopoldo Gotuzzo, Libindo Ferrás, Nelson Boeira Faedrich, Oscar Boeira, Pedro Weingärtner, Rose Lutzenberger, Sotero Cosme, Vasco Prado, Xico Stockinger.

Visita da arte argentina contemporânea.

A Coleção Oxenford, considerada a mais expressiva de arte contemporânea da Argentina, será apresentada na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS. “Un lento venir viniendo – Capítulo III” fica em cartaz de 07 de dezembro a 23 de fevereiro de 2025. A abertura contará com a performance de bailarinos.

Essa exibição trata-se de um recorte da coleção do empresário Alec Oxenford, que, atualmente, reúne 600 peças de 200 artistas e promove um panorama da arte contemporânea argentina entre o final do século 20 e início do 21. No dia da abertura, ás 15h, será realizada a performance “Soy un disfraz de tigre”, da artista plástica Cecilia Szalkowicz, e às 16h, uma visita guiada pelo poeta e curador independente Mariano Mayer.

A seleção de trabalhos e de artistas para “Un lento venir viniendo” foi dividida em “capítulos” para as três mostras no Brasil, que já passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói (Capítulo I) e Instituto Tomie Ohtake (Capítulo II), em São Paulo. Na Fundação Iberê Camargo (Capítulo III), o episódio estético de destaque é a literatura do porto-alegrense João Gilberto Noll (1946-2017), e, em particular, “A céu aberto”, obra que transborda de imagens e procedimentos para dar forma a uma sensibilidade que desafia a nossa própria experiência de mundo.

“Pensamos nas relações com cada cidade e com a arquitetura de cada museu. É realmente como uma história contada em diferentes capítulos. O título (“Um lento vir vindo”, em tradução livre) aponta este movimento, de criar um vínculo aos poucos, e que ele se estabeleça nas duas direções. O “Capítulo III” descobre no conjunto de afetos precários uma zona para o encontro e a retroalimentação entre duas forças experimentais: a literatura de João Gilberto Noll e a arte. A potência precária age como uma plataforma interpretativa com a que as peças selecionadas nos per mitem voltar a experimentar a arte e o mundo, as suas possibilidades e as suas impossibilidades”, destaca Mariano Mayer.

“Capítulo III”, que ocupará o segundo andar da Fundação Iberê Camargo, é composta por 50 obras de 45 artistas e apresenta uma diversidade de linguagens, entre pinturas, fotografias, vídeos, instalações visuais e sonoras, performances, esculturas, colagens e publicações, propondo uma reflexão sobre a “potência do precário” como uma condição de constante transformação e instabilidade, tanto nos objetos quanto nas pessoas.

Participam da mostra na Capital gaúcha trabalhos de Alejandra Mizrahi, Amalia Pica, Cecilia Szalkowicz, Clara Esborraz, Jane Brodie, Inés Raiteri, Julieta García Vázquez e Sofía Bohtlingk, Karina Peisajovich, Luciana Lamothe, Lucrecia Plat, Malena Pizani, María Guerrieri, Mariana López, Paula Castro, Sol Pipkin, Valentina Liernur, Valeria Maggi, Agustín Inchausti, Alberto Goldenstein, Alfredo Londaibere, Diego Bianchi, Dudu Quintanilha, Ernesto Ballesteros, Faivovich & Goldberg, Feliciano Centurión, Gastón Persico, Jorge Macchi, Leopoldo Estol, Luis Garay, Miguel Mitlag, Nicolás Martella, Oscar Bony, Ruy Krygier, Santiago De Paoli, Tirco Matute e Ulises Mazzucca.

Sobre Alec Oxenford

Cofundador da OLX e da letgo, Alec Oxenford é um empresário argentino residente no Brasil. É grande colecionador e membro ativo de comunidades internacionais em prol das artes latino-americanas. Entre 2013 e 2019, dirigiu a Fundación ArteBA. Atualmente, é membro do Acquisition Committee do MALBA e da Latin American and Caribbean Fund (LACF) do MoMA.

Sobre Mariano Mayer

Nascido em Buenos Aires, Mariano Mayer é poeta e curador independente. Entre seus últimos projetos como curador, figuram Prudencio Irazabal (MUSAC, León, 2024) e Táctica Sintáctica (Marres, Mastricht, 2023 e CA2M, Móstoles, 2022). Publicou também Ir al motivo (Galeria Elba Benítez, Madrid, 2023), Fluxus Escrito (Caja Negra, Buenos Aires, 2019) e Justus (Câmara Municipal de Léon, 2007) e dirigiu o programa em torno da arte argentina: Una novela que comienza (CA2M, Móstoles, 2017).

As paisagens insólitas de Petrillo.

27/nov

Exposição individual inédita do artista Petrillo apresenta sua produção recente, entre pinturas, desenhos e instalação com 1.200 obras que levou seis anos para ser concluída.

A investigação do artista visual Petrillo sobre as possibilidades de paisagens/lugares foi o que deu origem à sua nova mostra individual, “Territórios Possíveis – paisagens insólitas”, que ocupará o Centro Cultural Correios, Centro, Rio de Janeiro, RJ, até 11 de janeiro de 2025. Esta pesquisa integra seu repertório visual e imagético, que parte da referência de imagens e fotografias reais. Fazendo uma proposição da recriação da espacialidade, Petrillo observa a sua topografia e recria imagens e paisagens inexistentes, lugares por ele idealizados. Complementa a expsoição a grande instalação “Territórios Reconstituídos”, composta por cerca de 1.200 desenhos de pequenos formatos em caixas acrílicas de CD, onde demorou seis anos para ser finalizada.

A palavra do artista

“Esses trabalhos são fruto de uma pesquisa que venho realizando há algum tempo e são bastante pautados na questão da espacialidade e nos estudos de espaço e lugares  propriamente ditos. Comecei a observar a questão das curvas de nível nfluenciado pela faculdade de Arquitetura, onde dou aulas de desenho. Todo esse processo foi desembocar agora: ressignificando as “voçorocas” (afundamento de solo), acenando também para uma preocupação ecológica e como uma pequena denúncia sobre o que o homem está fazendo na degradação do meio ambiente. Ressignifico não apenas as paisagens que pura e simplesmente vemos, mas também expresso algo mais visceral e impulsivo, a paisagem que está dentro do imaginário de cada um. As manchas nas pinturas são intencionais, vou colocando camadas sobre camadas, nada é aleatório”.

Marcus de Lontra Costa assina o texto crítico “Várias Paisagens”, discorrendo sobre o processo de realização das obras.

Um museu especial.

26/nov

Museu dedicado aos carros, com muita arte, design e educação, o CARDE abriu as portas ao público, em Campos do Jordão, São Paulo, SP. O CARDE é um projeto da Fundação Lia Maria Aguiar, que desde 2008 desenvolve programas de educação, arte, cultura e saúde, entre crianças e jovens de Campos do Jordão.

Campos do Jordão (SP), a 170 km da capital paulista, é a cidade mais alta do Brasil, com altitude média de 1.628 metros. Famosa por atingir baixas temperaturas, atrai muitos turistas, que apreciam também que apreciam também a gastronomia e a arquitetura locais. Porém, a partir de agora, para muitos, ela também será lembrada como a sede de um importante museu de automóveis brasileiro: o CARDE.

São cerca de 100 carros expostos de forma rotativa (o acervo tem mais de 500 automóveis) em ambientes divididos de acordo com as décadas dos anos 1900, mostrando as referências de suas épocas também atatravés da arte, com obras de artistas renomados como Candido Portinari e Di Cavalcanti, joias, esculturas e gravuras. Também entre as histórias contadas há veículos governamentais, nacionais e esportivos.

Por trás desse projeto visionário está Gringo Cardia, um dos mais renomados designers e cenógrafos do país, conhecido por transformar espaços em experiências memoráveis.

Fonte: Quatro Rodas.

Última itinerância da 35ª Bienal.

De 30 de novembro de 2024 a 09 de março de 2025, a cidade de Porto Alegre, RS, receberá a última parada da itinerância da 35ª Bienal de São Paulo – coreografias do impossível, uma exposição correalizada pela Fundação Iberê Camargo e a Fundação Bienal de São Paulo. Curadoria de Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel.

O evento encerrará o ciclo de exposições que, ao longo de 2024, percorreu dez cidades brasileiras e três internacionais, ampliando as discussões propostas pela Bienal de São Paulo em sua última edição, realizada em 2023. Ao todo, a 35ª Bienal alcançou 14 cidades, incluindo seu último destino.

Entre os 121 participantes da 35ª Bienal de São Paulo, sete deles estarão presentes com suas obras na Fundação Iberê Camargo: Aurora Cursino dos Santos, Katherine Dunham, MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), Nontsikelelo Mutiti, Rosana Paulino, Ubirajara Ferreira Braga, e a dupla Simone Leigh e Madeleine Hunt-Ehrlich. Os trabalhos selecionados para a última itinerância refletem diálogos sobre ancestralidade, memória e as complexas relações entre corpos, territórios e resistência, temas centrais desta edição da Bienal.

No dia 30 de novembro, durante a inauguração da itinerância, a entrada é gratuita e a equipe educativa da Fundação Bienal de São Paulo realizará uma visita mediada, às 15h30.

Três fotógrafas em foco.

22/nov

Exposição de fotos emoldura o Brasil profundo com lentes europeias. Imagens das fotógrafas Claudia Andujar, Lux Vidal e Maureen Bisilliat estão em cartaz no Centro MariAntonia da USP.

Suíça, Alemanha e Inglaterra. Em meados dos anos 1940, três jovens saíam de seus países de origem devido à Segunda Guerra Mundial, iniciando trajetórias que as levariam, décadas depois, às aldeias indígenas do Brasil. As fotógrafas Claudia Andujar, Lux Vidal e Maureen Bisilliat penetraram nas terras Parakanã, Xikrin, Xingu e Yanomami, capturando imagens singulares dos povos locais. Cerca de 300 dessas imagens encontram-se exibidas na exposição “Trajetórias Cruzadas”, em cartaz até 23 de fevereiro de 2025 no Centro MariAntonia da USP. “Para essas três mulheres, a fotografia foi uma forma de estabelecer contato com a população brasileira. Apesar de falarem várias línguas, elas não falavam português quando chegaram aqui. Então, foi também uma forma de comunicação muito eficiente”, afirma a antropóloga Sylvia Caiuby Novaes, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, curadora da mostra, que além das fotos traz também revistas, desenhos e um vídeo.

A exposição ocupa três salas do Centro MariAntonia. A primeira delas, intitulada Início, apresenta fotos da trajetória pessoal de Andujar, Vidal e Bisilliat. São imagens que remontam à infância e juventude das três fotógrafas, vividas em terras estrangeiras, e fotografias do começo das suas carreiras profissionais.

A segunda sala, chamada Outros Viveres, destaca as produções mais aclamadas das três fotógrafas, reunindo fotografias das aldeias indígenas visitadas por elas. Imagens de um incêndio no Xingu, feitas por Andujar em 1976, estão ao lado de fotos da estrutura de uma oca em construção, de autoria de Bisilliat, e de retratos de indígenas obtidos por Vidal, nunca antes expostos ao público.

Na terceira sala da exposição, Encontros, é exibido o vídeo Aqui é o Mundo, produção de 2023 dirigida por Maíra Bühler. O filme mostra as três fotógrafas conversando, enquanto manuseiam fotografias feitas em viagens pelas aldeias indígenas. As imagens expostas fazem parte dos acervos Instituto Moreira Salles (IMS), do Lisa, de Lux Vidal e da Galeria Vermelho.

Sobre as três fotógrafas

Claudia Andujar nasceu em Neuchâtel, na Suíça, em 1931. Passou a infância em Orádea, entre a Hungria e a Romênia. Entre 1944 e 1945, seu pai e sua família paterna, de origem judaica, são enviados aos campos de concentração de Auschwitz e Dachau. Em 1946, muda-se para Nova York com seu tio Marcel Haas. Casou-se com o espanhol Julio Andujar e adotou seu sobrenome. Entre 1949 e 1952, estudou no Hunter College e começou a pintar, inspirada pelo expressionismo abstrato. Decide vir para o Brasil em 1955, onde começa a se interessar por fotografia. Nos anos 1960, trabalha como fotógrafa freelancer para revistas brasileiras e norte-americanas, como Claudia, Realidade, Life e Look. Enquanto trabalhava em um número especial da revista Realidade dedicado à Amazônia, em 1971, entra em contato com os Yanomami. Sete anos mais tarde, funda, junto com outras pessoas, a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), que luta pelo reconhecimento do território daquele povo. Faz diversas exposições sobre os Yanomami, no Masp (1989), no Memorial da América Latina (1991), na Bienal de Arte de SP (1998), no MIS (2000), na Pinacoteca (2005), no Instituto Moreira Salles (2019) e na Fundação Cartier de Paris (2002 e 2020).

Lux Vidal nasceu em 1930, em Berlim. Passou a maior parte de sua infância e juventude na Espanha e na França, onde estudou Letras Clássicas. Em 1951 obteve o título de Bacharel em Artes pelo Sarah Lawrence College, em Nova York (EUA), onde cursou Antropologia, Literatura e Teatro. Chegou em São Paulo em 1955, lecionou na Aliança Francesa e no Liceu Pasteur, e, em 1967, voltou a estudar Antropologia na USP, onde realizou seu mestrado e doutorado. Em 1969, ingressou como professora no Departamento de Antropologia da USP e a partir de então desenvolveu diversas pesquisas e ações indigenistas, especialmente com os Mebengokré-Xikrin, do Pará, e os povos indígenas do Oiapoque, Amapá. Lux formou um grande número de antropólogos e antropólogas e contribuiu para a fundação de várias organizações indigenistas, como a Comissão Pró-Índio de São Paulo, e segue realizando publicações e trabalhos relacionados aos povos indígenas.

Maureen Bisilliat nasceu em 1931 em Englefield Green, na Inglaterra. Filha de uma pintora escocesa e de um diplomata argentino, morou em diversos países quando criança por conta da profissão de seu pai. Em 1955, estudou pintura com André Lhote e, dois anos depois, estudou artes em Nova York, na Arts Students League. Maureen vem para São Paulo em 1953 com seu primeiro marido, o fotógrafo espanhol José Antonio Carbonell e, em 1959, se muda definitivamente para o Brasil. Ela então abandona a pintura e começa a se dedicar mais à fotografia. Entre os anos 1960 e 1970, trabalha para a revista Realidade, da Editora Abril. Na mesma época, começa a editar fotolivros, onde traça equivalências entre suas fotografias e trechos de livros de autores brasileiros. Em 1973 faz sua primeira viagem ao Xingu com os irmãos Villas-Boas, mesmo ano em que inaugura a Galeria O Bode, em São Paulo. Em 1988, é convidada por Darcy Ribeiro a constituir o Pavilhão da Criatividade no Memorial da América Latina. Maureen publica diversos fotolivros, filmes e realiza exposições na Bienal de São Paulo (1985), Fiesp (2009), IMS (2020) e MIS (2022).

Fonte: Jornal da USP.